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Bora lá Viajar!

Um blog de viagens de uma sonhadora que quer partilhar as suas experiências com o mundo.

Qua | 26.08.20

Mudar de país pela primeira vez: o choque inicial

Joana Lameiras

Eu na Suécia.jpg

 

Este post é um bocadinho diferente do habitual. Hoje, não vou falar de roteiros ou dar dicas de viagem - em vez disso, quero partilhar uma experiência que mudou a minha vida: a experiência de mudar de casa e de país pela primeira vez.

Em Maio de 2019, foi-me oferecida a oportunidade de estudar um ano em Estocolmo, na Suécia, numa das melhores universidades de tecnologia da Europa, a KTH. Tinha-me candidatado uns meses antes, assim um bocadinho à toa porque não sabia bem o que queria estudar. Passadas umas semanas de ter entregue a minha candidatura, um outro plano começou a formar-se na minha mente: o de fazer um gap year. Isto era exatamente o que eu achava que precisava - era a oportunidade perfeita para viajar e trabalhar em diversos campos, e eu julgava que me ia ajudar a perceber o que realmente queria fazer da vida.

Estava no processo de planear este ano sabático, quando recebi aquele e-mail que me alterou todos os planos: não só tinha sido aceite para o programa, como tinha também ganho uma bolsa que me iria cobrir as despesas de viver no país tão caro que é a Suécia. Por muito que me entusiasmasse fazer o meu gap year, eu sabia que esta era uma oportunidade única, e acabei por aceitar a proposta. Não sabia se ia gostar das cadeiras, não sabia se ia gostar da Suécia, mas a única maneira de descobrir era ir, e fui.

A experiência foi longe de ser perfeita. Acho que nenhuma nunca o é e mudar de casa, especialmente para um país do outro lado da Europa, não foi fácil para mim, que sempre vivi em Coimbra com a minha família. 

Antes de fazer esta grande mudança, tinha amigas que já tinham feito Erasmus, e falavam maravilhas da sua aventura. Tinham adorado, tinham-se fartado de viajar, a maior parte pouco tinha estudado e parecia que só existiam pontos positivos em viver uma temporada no estrangeiro. Para mim, nunca tinha havido dúvidas de que queria estudar lá fora, e este sentimento foi apenas reforçado após ouvir as histórias destas minhas amigas e o quanto tinham gostado.

Esta foi uma das razões pela qual, no início, sentia que estava a fazer algo de errado, que alguma coisa não estava bem, porque me sentia desamparada e completamente só. Afinal de contas, se os outros adoraram a experiência, porque não haveria eu, que ainda por cima sempre quis isto, de adorar também? 

E a verdade é que eu estava a gostar de certas partes: conhecer pessoas de todo o mundo, fazer novos amigos, aprender mais sobre a cultura sueca, explorar os recantos de Estocolmo, ter a minha independência - até ir às compras ao Lidl eu achava piada. No fundo, a única coisa da qual eu profundamente não gostava era de chegar a casa, no final do dia, e estar, na maior parte das vezes, sozinha. Estava muito habituada a ter sempre a companhia da minha família e amigos, e perder isso custou-me muito no primeiro mês. Os primeiros tempos foram um grande choque e senti-me muito overwhelmed, eram tantas as novas experiências e desafios: tentar perceber onde eram os diferentes campus, orientar-me no metro, fazer compras de comida não percebendo patavina de sueco, habituar-me à moeda sueca, falar todo o dia inglês… entre muitos outros.

Na primeira semana, tive muitas dúvidas. Passava horas ao telefone com a minha mãe, a refletir sobre se tinha feito a decisão certa em vir. Mas lentamente, à medida que o tempo passava e eu me ia habituando à minha nova rotina, à minha nova casa e aos meus novos colegas, fui-me apercebendo que não há, de facto, uma decisão certa. Foi só uma decisão, sem certo nem errado, e depende de mim tirar o melhor da mesma. Esta mudança de mindset foi muito importante para me começar a sentir melhor e mais confortável. Comecei a perceber que não havia problema em estar a ter uma experiência com dificuldades, porque sabia que iria aprender muito precisamente por causa destas dificuldades.

E toda a gente que vai estudar fora passa por diferentes obstáculos e vai com diferentes condições. Algumas pessoas vão sozinhas, outras com pessoal conhecido, umas ficam só um semestre, outras mais tempo, umas fazem um programa de intercâmbio, outras um curso inteiro. Umas são assaltadas, outras nem casa têm quando chegam ao país, umas fartam-se de estudar e outras mal pegam nos livros.

Todas as experiências são diferentes e todas têm momentos baixos e momentos altos. É claro que uma pessoa entra mais confortavelmente nesta aventura se for com amigos, tal como há mais probabilidade de uma pessoa que vai sozinha criar laços mais fortes com outros que estão sozinhos do que uma pessoa que for acompanhada. Acho que o mais importante é não esquecer isso - que até o pessoal que mete insta stories a torto e a direito e que passa a impressão de que tem a vida perfeita, também tem momentos de solidão ou de ansiedade ou de saudades. É natural!

Percebo também porque é que as pessoas escolhem enaltecer toda esta experiência e falar maioritariamente dos momentos bons - porque realmente são muito bons e ultrapassam bastante os maus! Para mim foi assim, e acabei por adorar a experiência. Cresci imenso, aprendi mais sobre mim, fui forçada a sair da minha zona de conforto e apercebi-me que não custa assim tanto. Conheci pessoal incrível, visitei sítios lindos, provei comida deliciosa de todos os cantos do mundo e aprendi a chamar Estocolmo de “uma segunda casa”. E os momentos maus existiram, e foram difíceis de ultrapassar. Não só a solidão, mas também a falta de sol no inverno, o facto de não gostar de muitas das minhas cadeiras e as saudades doidas que tinha dos meus, que ficaram em Portugal. Durante as semanas anteriores a regressar a casa, sonhava com a minha reunião com a minha família, com os meus amigos. Mas, é curioso - quando realmente a experiência acabou e eu regressei para não mais voltar, o que mais sentia era saudades e uma vontade enorme de levar lá todos os meus amigos para poder partilhar com eles este pedacinho do mundo que vai fazer, para sempre, parte de mim.

 

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